Conheço uma varanda que tem uma gaiola. Uma gaiola de grades finas e brancas. Tem três poleiros, um recipiente com água e outro com alpista. Nessa gaiola vive um mandarim. Costumo vê-lo, pela manhã, quando o sol se ergue e ele desperta. Agita as asas. Sacode as penas e põe-se a cantar. Sei que olha através das grades, empoleirado no sítio mais alto. Olha o mundo e os pássaros que, livres, esvoaçam em redor. Têm ninho nos ramos das árvores próximas, ou passam a noite, encostados um a um, sob a proteção da folhagem.
Sei que o mandarim voa com eles, em asas de desejo de ver o mundo. Junta-se a alguma ave solitária e com ela ensaia voos felizes no ar fresco da manhã. À tarde, quando o sol aquieta os voos, abriga-se no beiral da varanda. Espera apenas que o calor abrande para voltar à brincadeira. Solta risos no bando juvenil. Desfia memórias com as aves mais idosas. Aquelas que regressam ano, após ano ao mesmo local. Sei que é um mandarim com sede de vida, de mundo. Mas vive atrás das grades. Vive preso numa gaiola branca de grades. Vive livre porque sonha e os sonhos não se prendem. Olha o mundo do poleiro mais alto. Distante. Sem coragem para descer.
Acho que se escolhesse o poleiro mais baixo, o mundo ficaria mais perto dos seus olhos. Se olhasse a sua gaiola, veria que tem uma porta sempre aberta. Se agitasse mais as asas saberia que pode voar.
Vive sozinho. Provavelmente, morrerá sozinho. Apenas um pássaro que vive em asas de sonhos. Espreita a madrugada. Apenas olha. Olha, olha. Declina o sol no horizonte. As trevas abraçam a Terra. Já não vê, mas continua olhando o mundo.
Tenho pena deste pássaro.
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